
Entalhes de mezuza na judiaria de Évora
Espalhadas pelas ombreiras medievais de Évora encontram-se pequenas ranhuras esculpidas e vazias, cicatrizes físicas de uma expulsão que alterou para sempre a população da cidade. Situados na antiga judiaria, em ruas como a Travessa do Barão, estes históricos entalhes de mezuza oferecem uma ligação tangível ao passado sefardita de Portugal.
Uma próspera comunidade medieval
Durante os séculos XIV e XV, Évora acolheu uma das maiores e mais prósperas comunidades judaicas de Portugal. Na sequência das leis de segregação do início do século XIV, a judiaria da cidade expandiu-se rapidamente, em grande parte devido ao estatuto de Évora como sede frequente da corte régia. O bairro chegou a contar com duas sinagogas, um tribunal rabínico, um hospital e um banho ritual.
O legado deste polo intelectual e cultural continua bem vivo na cidade. A judiaria acolheu figuras proeminentes como o astrónomo Abraão Zacuto, cujo almanaque impresso, determinante para a Época dos Descobrimentos, se encontra hoje preservado na Biblioteca Pública de Évora.
A Inquisição e a herança oculta
A prosperidade da judiaria sofreu um corte abrupto em dezembro de 1496, quando D. Manuel I promulgou um édito que forçava todos os judeus em Portugal a converterem-se ao cristianismo ou a abandonarem o reino. As sinagogas foram encerradas e as mezuzás, pequenos invólucros com pergaminhos protetores fixados aos portais, foram arrancadas das ombreiras.
Em 1536, a Inquisição portuguesa estabeleceu em Évora um dos seus principais tribunais para perseguir cristãos-novos acusados de praticar secretamente o judaísmo. Apagar qualquer marca judaica tornou-se uma questão de sobrevivência. Para evitar denúncias, os moradores taparam as cavidades vazias das mezuzás com cal e argamassa. Ironicamente, esta tentativa de ocultação acabou por proteger os entalhes na pedra de séculos de erosão, permitindo que estudos históricos modernos os redescobrissem intactos.
Relevância arquitetónica
Hoje em dia, estas ranhuras continuam a fazer parte do cenário urbano no centro histórico de Évora, classificado pela UNESCO. Escavados nas ombreiras medievais de granito, muitas vezes junto a arcos ogivais góticos, estes entalhes desgastados criam um contraste tátil vincado com as paredes caiadas e as barras amarelas típicas da arquitetura alentejana.
Enquanto a tradição asquenaze dita geralmente a inclinação da mezuza, o costume sefardita permitia a sua colocação na vertical. Esta diferença é evidente nos entalhes perfeitamente aprumados que se encontram em várias ombreiras do bairro. As marcas pontuam os trajetos habituais que ligam a Praça do Giraldo a portas medievais como as Portas de Alconchel, onde placas informativas junto à Travessa de Cima recordam a profunda história deste lugar.
FAQ
Porque é que os entalhes de mezuza em Évora estão vazios?
Os entalhes ficaram vazios após o édito de 1496 de D. Manuel I, que forçou os judeus à conversão ou ao exílio. Para escapar à perseguição da Inquisição, os moradores retiraram os rolos de pergaminho e taparam frequentemente os cortes na pedra com argamassa para os ocultar.
Porque é que os entalhes de mezuza em Évora são verticais e não inclinados?
A tradição sefardita permitia a colocação da mezuza na vertical, o que se reflete nos entalhes a direito nas ombreiras das portas em Évora. Isto difere do costume asquenaze, que dita a inclinação da mezuza.
Onde se podem encontrar os entalhes de mezuza em Évora?
Estes entalhes históricos situam-se na antiga judiaria de Évora, em ruas como a Travessa do Barão, a Rua da Moeda e a Rua dos Mercadores, contíguas à Praça do Giraldo.
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