
Museo del Violino: o património da liutaria de Cremona
A casa da liutaria cremonesa
Instalado no flanco sul da Piazza Guglielmo Marconi, em Cremona, o Museo del Violino afirma-se como o coração cívico e cultural de séculos de mestria no fabrico de violinos em Itália. Entre meados dos séculos XVI e XVIII, Cremona floresceu até se tornar a grande capital europeia da liutaria. Foi o mestre artesão Andrea Amati quem padronizou a forma do violino moderno em pleno século XVI, fundando uma linhagem de excelência perpetuada ao longo de gerações pela dinastia Amati, pela família Guarneri e por Antonio Stradivari. Hoje, esta arte integra a Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO e continua a pulsar nas cerca de 150 a 200 oficinas artesanais dispersas pela cidade.
Inaugurado a 14 de setembro de 2013, o museu reuniu as históricas coleções de Cremona sob o teto de uma única instituição. A passos curtos do Duomo, do Torrazzo e da Piazza del Comune, o espaço tira partido de instalações multimédia para conduzir o visitante pela história viva da construção de instrumentos, do Renascimento à atualidade.
De pavilhão racionalista a marco cultural
O museu habita o Palazzo dell'Arte, um complexo de cariz racionalista em tijolo e mármore projetado em 1941 pelo arquiteto Carlo Cocchia. A estrutura foi erguida entre 1941 e 1946 em terrenos desimpedidos durante a década de 1930, quando o regime fascista arrasou a igreja e o mosteiro medieval de Sant'Angelo para abrir a Piazza Marconi. Depois de décadas entregue a utilizações municipais avulsas, incluindo um longo período como pavilhão gimnodesportivo de bairro, o complexo acabou votado ao abandono.
Em 2009, o industrial e mecenas cremonês Giovanni Arvedi, através da Fondazione Arvedi Buschini, financiou a profunda remodelação do espaço. Os arquitetos Giorgio Palù e Michele Bianchi restauraram e reinventaram o edifício entre 2010 e 2013, transformando a histórica concha racionalista num refúgio desenhado à medida para os tesouros musicais da cidade.
Obras-primas e relíquias da oficina de Stradivari
O museu acolhe uma extraordinária constelação de instrumentos de cordas, com criações de Andrea Amati, Nicolò Amati e Giuseppe Guarneri "del Gesù". O génio de Antonio Stradivari brilha em várias obras maiores, entre as quais se destaca o violino de 1715, "Il Cremonese". Aquando da sua transferência para o Palazzo dell'Arte em 2013, a polícia municipal cortou as artérias circundantes e mobilizou uma escolta em viatura blindada para proteger esta joia de valor incalculável.
Para lá dos instrumentos acabados, o museu guarda mais de 700 moldes originais em papel, desenhos, formas de madeira e ferramentas manuais saídas diretamente da oficina de Stradivari. Com a morte do mestre em 1737, estas relíquias passaram para o seu filho Paolo e, mais tarde, para a coleção do conde Ignazio Alessandro Cozio di Salabue. O espólio cívico cresceu em 1893 com o legado de ferramentas e modelos deixado pelo negociante Giovanni Battista Cerani, a que se somou, em 1930, a generosa doação de artefactos de Stradivari feita pelo luthier Giuseppe Fiorini, enraizando em definitivo o método e a memória do artífice em Cremona.
Ao contrário de tantos acervos onde os instrumentos repousam em silêncio absoluto, os violinos históricos do Museo del Violino conservam-se em pleno estado de funcionamento. Luthiers e músicos tocam-nos com regularidade para manter viva a ressonância das madeiras e das junturas, e os instrumentos saem frequentemente das vitrines para brilhar em recitais a solo.
O auditório Giovanni Arvedi
No exato volume onde outrora funcionavam o salão nobre e o ginásio do Palazzo dell'Arte ergue-se hoje o Auditório Giovanni Arvedi, com capacidade para 464 espectadores. Projetada em torno de um palco elítico, a sala contou com a engenharia acústica de Yasuhisa Toyota. O perímetro interior é envolvido por fitas ondulantes de madeira moldada em tons claros e mel, recortadas para eliminar superfícies paralelas e encaminhar com rigor cirúrgico as reflexões sonoras.
O auditório acolhe concertos periódicos em que os exemplares históricos de Stradivari e Guarneri voltam a cantar ao vivo. É também o palco da prestigiada Triennale Internazionale di Liuteria, um concurso de projeção mundial cujos instrumentos premiados passam a integrar a coleção permanente do museu.
Diagnóstico científico e a cidade do silêncio
Mais do que uma galeria de exposição e uma sala de concertos, o Museo del Violino assume-se como centro de investigação científica. O edifício alberga laboratórios de diagnóstico e uma câmara anecoica, geridos em estreita cooperação com o Politécnico de Milão e a Universidade de Pavia, que aplicam técnicas não invasivas para dissecar o comportamento acústico e a composição material dos instrumentos históricos.
Esta obsessão pela pureza sonora viveu um momento marcante em 2019, durante o Stradivarius Recording Project, concebido para registar digitalmente o perfil acústico de exemplares raríssimos. Para blindar as gravações no auditório contra qualquer contaminação exterior, o presidente do município determinou o encerramento das ruas em redor, desviou os autocarros urbanos e pediu aos munícipes o mais rigoroso silêncio por todo o centro histórico.
FAQ
Que grandes mestres da liutaria estão representados no Museo del Violino?
O museu reúne instrumentos criados pelos expoentes máximos da tradição cremonesa, incluindo Andrea Amati, Nicolò Amati, Giuseppe Guarneri "del Gesù" e Antonio Stradivari.
Os instrumentos históricos do museu ainda continuam a ser tocados?
Sim. Os instrumentos são preservados em perfeitas condições funcionais, longe de ficarem reduzidos a meras peças estáticas de vitrine. Vários mestres tocam-nos com regularidade para salvaguardar a ressonância das madeiras e junções, e solistas de topo dão-lhes voz em recitais no Auditório Giovanni Arvedi.
Para que servia o Palazzo dell'Arte antes de acolher o museu?
Construído entre 1941 e 1946, sob o regime fascista, este edifício racionalista acolheu várias funções cívicas ao longo das décadas, tendo inclusivamente servido de pavilhão desportivo e ginásio municipal antes do seu restauro.
Porque é que as ruas de Cremona foram cortadas durante o Stradivarius Recording Project de 2019?
A cidade ordenou o corte de ruas, alterou os percursos dos transportes públicos e pediu aos moradores que minimizassem o ruído, para que os engenheiros de som pudessem obter gravações áudio puras e sem interferências dos instrumentos históricos no interior do auditório.




