
Schlenkerla: a histórica taberna de cerveja fumada de Bamberg
Uma relíquia viva da tradição cervejeira medieval
Situada no número 6 da Dominikanerstraße, no centro histórico de Bamberg, na Alemanha, a Schlenkerla (oficialmente Brauerei Heller / Heller-Bräu Trum KG) é uma das tabernas cervejeiras históricas mais célebres do mundo. Mesmo por baixo da Colina da Sé (Domberg), ao longo do itinerário histórico que liga o bairro comercial da ilha à colina do bispo, a Schlenkerla serve de ponto de referência essencial nesta cidade classificada como Património Mundial da UNESCO.
A taberna é famosa pela sua cerveja de assinatura, a Aecht Schlenkerla Rauchbier, uma Märzen escura de baixa fermentação, com um aroma e sabor intensos a fazer lembrar bacon fumado. Juntamente com a vizinha Spezial, a Schlenkerla é uma das duas únicas cervejeiras no mundo a manter de forma ininterrupta a antiga técnica de secagem do malte sobre fogo aberto para a sua Rauchbier. Esta rara dedicação à herança cervejeira valeu ao estilo a entrada na Arca do Gosto da Slow Food. Hoje, a casa continua a pertencer à mesma família, gerida pela sexta geração sob a liderança do mestre-cervejeiro Matthias Trum.




Passeio a pé por Bamberg com áudio e questionários: bispos, cerveja e pontes
2 horas8 paragensAudioguiaComece em qualquer dia, ao seu ritmoBilhete no telemóvel · reembolso em 30 diasAs origens do Leão Azul e o nome Schlenkerla
O edifício surge nos arquivos municipais de Bamberg logo em 1405 com o nome Haus zum blauen Löwen ("Casa do Leão Azul"), havendo registos de produção de cerveja associados em Stephansberg que remontam ao cervejeiro Eberlein Breu, em 1387. Em 1767, o tanoeiro e mestre-cervejeiro Johann Wolfgang Heller comprou a propriedade, dando origem à designação duradoura da cervejaria, Brauerei Heller.
A alcunha popular da taberna nasceu em 1875, quando o cervejeiro Andreas Graser assumiu os destinos do espaço. Graser coxeava de forma evidente e balançava os braços ao caminhar, um passo descrito no dialeto da Francónia como schlenkern. Os clientes habituais começaram a chamar-lhe carinhosamente Schlenkerla ("o pequeno gingão"). Com o tempo, a alcunha bem-humorada eclipsou o nome oficial da empresa e tornou-se a identidade definitiva da taberna e da sua cerveja.
Secagem com madeira de faia e brassagem por decocção
O inconfundível travo a fumeiro e carnes curadas da cerveja da Schlenkerla não resulta de aromatizantes artificiais nem de aditivos modernos. Pelo contrário, a cevada húmida é seca sobre fogueiras abertas de madeira de faia num processo contínuo de 24 horas, durante o qual o fumo aromático da lenha penetra a fundo no grão.
Embora uma lenda urbana muito conhecida sugira que a cerveja fumada nasceu de um incêndio acidental na cervejaria que chamuscou o malte, a história documental revela uma verdade bem mais prosaica: a secagem a fogo aberto foi o método habitual de malteação em toda a Europa durante séculos. Até à patente das estufas de secagem sem fumo em 1635, praticamente todas as cervejas europeias tinham um perfil fumado. Em vez de se renderem à modernização quando as estufas industriais se vulgarizaram, os cervejeiros de Bamberg optaram por preservar este perfil medieval. Na sala de brassagem, a Schlenkerla mantém também a brassagem por decocção, uma técnica ancestral anterior à invenção dos termómetros cervejeiros, na qual partes da mistura são fervidas em caldeiras de cobre para atingir patamares térmicos rigorosos.
Salas históricas e gastronomia da Francónia
A taberna funciona durante todo o ano como um animado ponto de encontro, marcado pelos tetos baixos de vigas de madeira escurecidas pelo tempo e pelas compridas mesas comunitárias despidas de artifícios. Os clientes distribuem-se por várias salas históricas, com particular destaque para a sala de provas Alte Lokal e para a Dominikanerklause, um espaço do século XIV que serviu outrora de capela privada num mosteiro dominicano.
A cozinha da Schlenkerla prepara a farta gastronomia da Francónia, pensada ao pormenor para acompanhar a cerveja fumada. Entre as especialidades da casa encontram-se a Bamberger Zwiebel (uma cebola recheada e estufada em molho de cerveja fumada) e o Schäuferla (pá de porco assada com courato estaladiço). As tradicionais bases para copos distribuídas pelas mesas exibem um provérbio da Francónia sobre a Rauchbier: se ao primeiro gole o sabor se estranha, ao segundo e ao terceiro a sede teima em não passar e o prazer cresce a olhos vistos.
Hospitalidade de taberna e a cultura da Dominikanerstraße
Uma das imagens de marca da experiência na Schlenkerla é a forma como a cerveja é servida. Longe das torneiras de pressão convencionais, a taberna tira a sua Rauchbier por pura gravidade, diretamente de barris de carvalho (Holzfass) colocados logo no corredor de entrada.
Como as salas interiores enchem num instante, desenvolveu-se uma animada tradição de beber na rua. Os clientes dirigem-se habitualmente à portinhola do corredor para pedir canecas de grés de meio litro (Seidla) tiradas diretamente do barril, reunindo-se para beber de pé sobre a calçada da Dominikanerstraße. Este ambiente contagiante que transborda para o exterior reflete a profunda cultura cervejeira de Bamberg, onde a vida social da cidade gira há séculos em torno do convívio comunitário e da boa cerveja local.
FAQ
Porque é que a Schlenkerla Rauchbier sabe a fumo?
A cerveja ganha o seu sabor fumado porque a cevada húmida é seca sobre fogueiras abertas de lenha de faia durante 24 horas no processo de estufagem, permitindo que o fumo aromático impregne completamente o cereal.
Como surgiu o nome Schlenkerla?
Em 1875, o mestre-cervejeiro Andreas Graser assumiu a casa. Como coxeava bastante e balançava os braços ao andar, um passo descrito no dialeto da Francónia como "schlenkern", os clientes alcunharam-no de "Schlenkerla" ("o pequeno gingão"), alcunha que acabou por batizar em definitivo a taberna.
A cerveja fumada foi inventada por acidente num incêndio?
Não. Embora uma lenda urbana conte que um fogo terá tostado o malte, a secagem de cereais sobre lenha a arder era o método padrão em toda a Europa até à patente das estufas sem fumo em 1635. A Schlenkerla limitou-se a preservar esta técnica medieval.
Como é servida a cerveja na Schlenkerla?
A Rauchbier é tirada por gravidade, diretamente de barris de carvalho tradicionais (Holzfass) no corredor de entrada, sendo servida em canecas de grés de meio litro (Seidla) para saborear nas salas históricas ou de pé, na calçada da Dominikanerstraße.

